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Artigo: 5-10-15-20 com Alex Turner

5-10-15-20 é um quadro do site Pitchfork onde os artistas convidados falam de suas vidas de cinco em cinco anos, sob o aspecto musical. A enquete a seguir aconteceu no ano de 2012 e começa com as experiências de Alex aos seus 5 anos, e assim sucessivamente.

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Estou sentado com Alex Turner no Bowery Hotel no Lower East Side [Região Sudeste] de Manhattan, mas parece como se ele estivesse vagamente dentro da história do Lado Oeste. Cabelo lambido para trás, jaqueta de couro com corte de rugas, zíperes de dentes prateados, uma fivela grande em forma de um T branco. Ele acendeu seu [cigarro] Parliaments com um [isqueiro] Zippo que, numa inspeção mais próxima, tem um brasão com o título do mais recente álbum do Arctic Monkeys, “Suck It and See”.
Estilo “greaser” besuntado diferente em muito dos ‘panos’ dos comparsas normais de Turner; e seus companheiros de banda caçoando-se mais do que a maioria dos grupos na história. Teriam esses caras anulado tudo o que consideramos que é rock? Quando pressionado acerca do novo estilo, o vocalista deliberadamente remove seu [Ray-Ban] Aviator — “pareceu ser um momento apropriado para tirar os óculos de sol,” ele brinca — e diz, “Apenas nos cansamos de tentar ‘não’ ser (estilosos). Tivemos apenas de chegar num acordo— de como devia ser.” Ao longo de nosso bate-papo, ele está pensativo e um pouco auto-consciente; ele provavelmente é mais gente boa que você, mas não é por causa disso ou doutra coisa que ele vai ser um babaca. E ele insiste que sua aparência Fonziada¹ não fora premeditada ou um resultado de estilistas influentes, assim como um testamento à camaradagem de seus amigos de infância e banda: “Dois dos caras tem esses cabelos bem pra cima [topete], e eu fiquei, ‘Dane-se, eu quero estar de volta na gangue!‘”
E enquanto que Turner, 26 anos, possui carisma, voz e talento de composição que lhe permite se tornar uma estrela solo por conta própria — de fato, as maravilhosas canções que ele escreveu para o “Submarine” do ano passado foram de suas melhores até então— ele não está interessado. Por que fazê-lo quando está se esquivando, tocando em apresentações pelo mundo com seus melhores amigos? O cantor é filho único, mas quase tudo das estórias que ele me conta, enquanto falamos sobre a música da sua vida, envolve seus amigos, quer estivessem personificando o Oasis ou arrumando garotas juntos. E quando chega nos pronomes, ele normalmente use sem querer “nós” em vez de “eu”.
Poucas horas depois de nossa entrevista, os Arctic Monkeys abriram show para o Black Keys no Madison Square Garden, e uma vez que sua tour termina neste mês [maio], Turner está muito entusiasmado para voltar ao estúdio com sua banda neste verão para trabalhar em seu quinto álbum.

 

01

Deep Purple: Música “Hush”

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Provavelmente eu não queria muito me envolver com música naquela época²… Eu era muito mais devoto a subir em árvores e ser o Batman. Mas eu costumava sair com meu vizinho mais crescido e seu pai adorava rock clássico. Ele sempre tocava Deep Purple nestas boombox, no quintal dos fundos. Eu consigo lembrar de brincar de Batman e Robin ao som de “Hush” nas tardes de sábado. Meu vizinho era um pouco mais velho que eu e tinha permissão para mascar chicletes — eu não podia fazê-lo aos cinco anos de idade. Por quê? É perigoso pra caramba, você pode se engasgar! Ele podia usar gel, também. Eu queria ser ele um pouquinho.
E também, uma noite em que estávamos num táxi em Chicago, e aquela música do Toto “Hold the Line” toca: [canta] “Hold the line, dun dun dun dun, love isn’t always on time.” Eu conhecia uma alarmante montoeira de letras pra aquele som, por causa que minha mãe costumava pôr para tocar no carro, me levando nas voltas, na cadeirinha. Ela sempre tocava Eagles, também, e por esta razão, agora eu sou um perito nas inúmeras músicas dos Eagles toda vez que eu os ouço em restaurantes. Consigo cantar “Hotel Califórnia” inteira do começo ao fim. De qualquer forma, prossigamos.

 

02

Oasis: música “Good Morning”

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No UK, você vai da escola primária ao ensino fundamental³ aos 11 anos. E quando deixamos a escola primária, todos os moleques formavam grupos e faziam uma performance, assim como as garotas faziam uma dança das Spice Girls, ou algo assim. Então eu e Matt e alguns de nossos amigos interpretamos “Morning Glory”— nós “tocamos” algumas raquetes de tênis e fingimos ser o Oasis. Matt foi o Liam Gallagher, ele tava com um chapeuzinho. Eu era o baixista. Ficamos apenas parados lá, fazendo o que o Oasis fazia no palco… o que não foi uma coisa boa. Não acho que tivemos uma reação tão boa quanto as das Spice Girls.
Com o Oasis, é bem aquela atitude, tipo uma resistência contra tudo o mais que está acontecendo na música. Não sei se você consegue compreender completamente isso— é tipo um impulso, né? Especialmente naquela época, você não racionaliza, você fica tipo, “Isso parece legal”. E eu sinto que esse é o jeito que deveria ser agora, de certa forma. Música de guitarra ou rock’n’roll, ou como queira chamar, meio que some com as tendências, mas nunca desaparecerá completamente. Não pode morrer pois é fundamentalmente atrativo.
Nós ainda ouvimos “Morning Glory” no nosso camarim às vezes e também “D’You Know What I Mean?” —aquela maior com a porra do som de helicóptero. É bem arrogante mas é foda. É engraçado ouvir Noel falar dessa música agora, da primeira vez que eles a tocaram no Radio Booker, e o cara tipo, “Você acha que é um pouquinho longa?” E ele, “Do que você está falando? Não é longa o bastante!”
O Noel clássico.

 

03
Roots Manuva: álbum “Run Come Save Me”

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Só fui ter uma guitarra quando estava com 15 anos, mas não havia muito de músicas de guitarra na minha vida até então. Estou certo de que haviam grandes bandas naquela época, mas eles apenas não vingaram no nosso pequeno vilarejo a 20 minutos de Sheffield [High Green]. Naquele tempo, estávamos fissurados em hip-hop de tal forma… — usávamos bonés e tals, e nossas calças definitivamente tem muito menos conforto que as que eles usam agora. Matt raspava a minha cabeça na sua cozinha, mas ele deixava duas mechas de cabelo nela; daí aquele espaço entre aquelas mechas descia e ia até minhas sobrancelhas. É o penteado mais estranho que já vi.
Eu estava [na época] ouvindo a este rapper britânico chamado Roots Manuva, junto com OutKast, Eminem, Wu-Tang; tudo isso. Mas eu acho que a razão do por quê estar conectado a “Run Come Save Me” do Roots Manuva foi provavelmente por causa que ele estava falando sobre coisas mundanas com um olhar um pouco mais frio. E também, naquela idade, eu queria ter as minhas próprias coisas que outras pessoas podem não ter ouvido falar.
Na escola, certamente que tínhamos os esquisitos e os caras mais populares, mas eu não sei se era tão territorial assim como nos filmes americanos, ou mesmo nas escolas britânicas de ensino secundário dos anos 70, onde haveriam gangues que estariam focados na sua própria música. Essa coisa toda estava estabilizada na época que entramos na escola, uma pena…— Eu ficaria bem interessado por haver grupos diferentes. Daí não seríamos os banidos mas não estaríamos no topo da cadeia, também. A gente só costumava evitar isso.

 

04
The Kinks: álbum “Face to Face”

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Nosso primeiro álbum saiu quando tínhamos apenas 20 anos. Onde crescemos tinha esses outros piás que tinham bandas, que costumavam tocar em um dos pubs, e a gente começou a sair com eles. Íamos assisti-los e bebíamos cidra e ficávamos abobados e íamos atrás de garotas. E então, numa sexta à noite, batendo papo de bobeira, a gente tipo, “Devíamos formar uma banda”— só procurando desesperadamente algo para fazer, suponho. Nenhum de nós conseguiria tocar qualquer coisa. Mas nós tínhamos guitarras e um kit de bateria e colocamos isso junto, num verão, na garagem de minha mãe e meu pai. Foi somente baseado nesta ideia de observar esses moleques, cuja ambição era fazer um show no pub.
Demorou até um ano depois disso para começarmos a criar nosso som. A primeira leva de músicas que escrevemos e gravamos estão por aí [internet], porque qualquer coisinha é pra já [hoje em dia], e é engraçado ouvi-las hoje em dia porque nós, definitivamente, ainda não tínhamos descoberto [na época]. Mas depois a confiança veio, e gradualmente nos metíamos nas coisas. Eu definitivamente me apaixonei com a ideia de tocar guitarra, mas eu nunca era o cantor e no começo eu não sabia como fazer aquilo. É por isso que nossas primeiras músicas tem um monte de palavras e apenas uma mera pista vaga de melodia. Eu não comecei a realmente cantar até alguns anos bons anos depois disso.
Voltando então, eu estava ouvindo bastante a “Face to Face” do Kinks, embora já tivéssemos escrito o primeiro disco antes de eu começar a apreciar as narrativas de Ray Davies. Para mim, tanto quanto para os letristas, vai de Ray Davies a Nick Cave para Method Man. Rappers têm de pôr tantas palavras numa só música; por isso, manter isso interessante é simplesmente um puta de um talento muito foda. Eu saí do rap por um tempo e foi só no ano passado [2011] que eu comecei a gostar de Lil Wayne e Drake, que são incríveis. Tem um monte disso na jukebox do Monkeys neste momento.
Foi também por volta dessa época, quando eu comecei a passar mais tempo com Miles Kane, com quem eu fiz o álbum do Last Shadow Puppets, que começamos a gostar de “Scott 4” do Scott Walker, o que realmente explodiu a minha mente. Foi aí que eu comecei a querer cantar.

 

05

Townes Van Zandt: música “(Quicksilver Saydreams of) Maria”

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Ano passado [2011] eu estava tentando chegar a um acordo da ideia de que sou um compositor. Me interessei em música country, a qual eu realmente nunca tive uma conexão ou compreendido antes. Mas alguém como Townes Van Zandt é incrível— é isso o que se trata a música: quando você ouve algo e você não tem realmente escolha além de pensar, “Ah caramba, beleza, estou indo então.” É isso o que eu senti com seus discos.
E também, eu li essa história sobre o Iggy Pop onde ele disse que havia um programa de TV que ele assistia quando mais novo e o cara pedia pras crianças escreverem cartas no programa e as cartas tinham de ser com menos de 25 palavras — e ele aplicou aquilo na escrita de “No Fun”. Então, uma vez que sempre fazemos canções com centenas de palavras, pensamos se devíamos tentar uma que tivesse menos de 30, que acabou a ser “Brick by Brick”. Mas eu coloquei o baterista pra cantá-la porque parecia tipo a coisa certa a se fazer.
Essa música nos apresentou a um lado novo de nós mesmos. Mesmo que seja uma baixa, sabemos disso, e isso tem um senso de humor; diz “I wanna rock’n’roll” tipo três andamentos, o que é hilário. Sempre teve piadas em nossas músicas; originalmente, eu comecei a escrever letras para fazer meus amigos abrirem um sorriso, o que é difícil. “Don’t Sit Down ’Cause I’ve Moved Your Chair” é como uma puta de uma grande piada. Eu sei que minhas letras podem vir a ser estranhas para alguns, mas elas não são assim para mim, porque eu sei de onde elas vêm — eu sei o segredo.

 

 

Notas
1 Arthur Herbert Fonzarelli ou Fonzie é um personagem interpretado por Henry Winkler no sitcom “Happy Days” (1974–1984).
2 Alex fazendo piada, pois nasceu no mesmo ano do lançamento da música.
3 Secondary School não tem equivalente no nosso país. No Reino Unido abrange o que abarcaria no Brasil o ensino fundamental e ensino médio.

 

Data da publicação original: 10/05/2012

Fonte: Pitchfork

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